Parnaso em Fúria 01

A lírica de Felipe D´Castro...

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Kelliany Lima


Sábado, 05 de junho de 2010




     Pra quê ficar guardando esses papéis em gavetas sujas e cheias de poeiras enquanto nós, meros leitores, ficamos esperando tudo isso? De quanto nos privam? Fala seríssimo!
Olha aí, mais uma poeta(isa) que trago ao Parnaso em Fúria!

   Kelliany Lima, estudante do curso de letras pela Universidade Federal da Paraíba. Infelizmente ela me cedeu apenas este poema:


Foto

Imagem ríspida daquilo que eu queria tocar.
Bruta pedra que não consegue a saudade afugentar,
e muito menos dela me livrar.
Sinto pena de cada milímetro da curvatura dessa pitoresca imagem ,
que tenta me enganar , mas nem o medo consegue suportar.
Injusta a causa que me leva a ti.
Que busca insondável que me induz até teu coração, mas...
mesmo  assim , matenho a tua foto em minhas mãos.
A única , a mesma,, você......
Imagem. 


Valéria Vicente

Sábado, 05 de junho de 2010



     Trago agora mais um ser mergulhado no mundo da poesia, e talvez por estar tão fundo mesmo, é que ainda não tenha sido visto. Vejam a poesia simples e profunda, direta e tocante de Valéria Vicente:




Recomendações


Por que tens duas caras
Se não tens dois corações?
Será que tenhas vivido duas vidas
Ou será uma temível fantasia?

Que se tenha estranhado
Tua antipatia sorridente
Desde o primeiro bom dia
De um mau dia de chuva.

Contendo nas veias
O sangue frio da vaidade
Onde até os últimos olhares
Correspondem às últimas tentativas
Daqueles que nunca desistiram
De um único olhar frio
E persistente teu.

Então pedimos que não tenhas
Caridade conosco, nem aborrecimentos
Somente entendas como uma
Preocupação ao teu bem-estar
Simetricamente lamentamos
A tua perseverança.


(Há uma simplicidade invejável em deduzir e analisar a alma humana como diria outrem, afinal, para que se ter duas caras e um coração apenas?...)




A primeira vez que fui ao Rio


De tanto ver
Rio de braços abertos
Me deu vontade de descer
Da cama,
Voar de bondinho,
Escalar o Pão de Açucar,
Abraçar o Cristo Redentor,
Encontrar um novo amor
E sair desse isolado quarto.

Ah, se eu pudesse
Pelo menos uma semana
Sair dessa depressão
Tomar banho em Copacabana
Ser uma celebridade
Mas que pena
Minha novela acabou
Parei de imaginar...
Porém, como basear numa coisa
Que nunca vi pessoalmente?
Só resta agora
A solidão do meu quarto
Para eu sonhar e quem sabe
Um dia passar a verdadeira emoção:
"Flutuar no bondinho"


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Entrevista de Emprego

A chuva me molhou
Me refrescou
E o sol me secou
Durante a caminhada
Desta vida.

Já chorei
Já sofri
Pensei que eu iria morrer
Mas não morri
Estou aqui
Iludida ou não
Isso eu não sei.

Só sei que a minha vida
Tornou-se um tédio
Só estudo e não trabalho
Sem dinheiro e cem sonhos
Pra realizar

Por isso que vim
Sentar e contar
Lamentar e chorar
E até ajoelhar
Se for preciso

Pois não quero
Lavar, passar
E nem cozinhar
Eu quero trabalhar
Ganhar e gastar

Hoje sou eu
Quem implora
Mas quem sabe
Amanhã trocaremos
Os papéis?!...



Termino por aqui a apresentação de mais um escritor que (ainda) não publicou!

Alex Luís Roque

Quinta, 03 de junho de 2010


     Devo confessar que prefiro a prosa à poesia, principalemente se esta poesia não apresesntar rimas. Porém este meu pensamento, ou preferência, como queira, vem diluíndo-se ao decorrer do curso de letras. Foi só ler Drummond e Bandeira que minha querela com os versos brancos e livres foi se esvaindo...
Apresento agora, alguém que me mostrou também a beleza dos versos livres, mostrou que não só de rimas vive a poesia e eliminou, mas ainda não por completo, aquele meu preconceito dantes, ele se chama Alex Luis Roque. Ao invés de falar de sua poesia, dou-lhe a "voz":


Canção


Meu poema é terra
Limite branco onde pousa o chão
Inefável verdade refugiada
Em novembros flagelados
O tempo e a eternidade
Assinalados sem brasão


     Como se pode perceber, a poesia de Alex é algo que devemos tomar como reflexão, a sua completa interpretação - ainda que seja impossível - é o produto de um processo demorado, paciente e agradável, vejamos mais deste grande poeta paraibano:

A imitação do amor

A imitação do amor num instante preclaro
Ressuma a aparente imagem do ser irreversível
Que é a luz da lua divisa o incoersível
Numa sucessão infinita alheia ao dano
A imitação do amor em dédalos profanos
Apregoa a sede omissa da última flor do Lácio
Que se reveste tolentinamente
De olores ocultos numa profusão de eternidades

A imitação do amor nas amarras da linguagem
É o côncavo e o convexo de um lavor ordinário
Que perpetua a glória merencórica
Sob o cantar de três pássaros de chumbo

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A Ezra Pound


Repudio o azul das manhãs
Onde incorre o corte de ferir
A tez Maçã
E se o silêncio alimenta-se
De palavras inexatas
Não serei nenhuma antena
Mas a linguagem putrefata

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No limiar das horas pardas


No limiar das horas pardas
Um frêmito de dedos paira
Sob o seio volúvel da mulher amada
E o choro na margem rubra dos olhos
Pios de conteúdo desnuda a dor mais
Que circunflexa dado ao espelho
De um vasto oceano imperecível
Como o amor e suas vicissitudes
Num lume de plumas alheio ao
Vôo dos pássaros

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Maria Clarice

Maria Clarice sabe-se sol
Em pairagens de acesa monotonia
Na construção diversa e translúcida
De iluminar outras cercanias

Maria Clarice sabe-se vento
A percorrer o impacto das horas
No triunfo da ordem
Dos vândalos danos subumanos

Maria Clarice sabe-se ilha
No afeto totalmente fechado
Da mulher em flor no desejo
De externar-se

Maria Clarice sabe-se nuvens
Na acidental candura que silencia
A solidão lunar dos pássaros
E dos dias

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O jambo


Fruto rubro de tênue couraça
Encantamento de céu no sentido
Amplo da palavra
Doce lampejo do sal de ignotas bocas
Tens a doçura do mel e o encanto
De flor airosa

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O mar


Do mar busco a seiva
Vil e ardosa das conchas
A lépida brancura das águas
A tênue pureza da premar

Do mar busco o salgado
Das palavras em oceano
O sargaço sob o silêncio das areias
As ondas em tépido desmaio

Do mar busco o aço do peixe
Que se afoga
O mergulho no delírio dos búzios
A sede de não parar em qualquer porto
Do mar busco a maresia numa
Brisa alísia
O aguçar dos seus bêbados redemoinhos
O sal da palavra que me completa


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     O que se nota é que a poesia de Alex Luis Roque é uma pedra para o bom leitor mastigar! Uma pedra de sabor único!

Andreia Travassos

Sábado, 29 de maio de 2010


Andreia Travassos, estudante do curso de letras da UFPB    


     Dotadas de um poder de tensão incrível, as narrativas de Andreia Travassos prendem o leitor e o obriga a vigiar sua leitura, uma vez que cada termo, cada palavra é colocada como fruto de uma reflexão profunda. No conto que apresento, sobre um vampiro, que, ao que me parece, é sua especialidade, o eu-lírico narra sua morte da maneira mais suave e bela que se pode ser feita. A pena branca que anuncia a chegada do anjo que ceifa-lhe a “vida” é, para mim, o ponto alto da narrativa.
     O texto trás uma reflexão, ou melhor, um momento de crise existencial, que nos faz pensar: e o que é a realidade afinal? Sou o sou ou sou quem penso ser? Sou o que vejo ou o que é visto? Isso é o que podemos chamar de significatividade do texto. Segue ai, portanto, o conto “Passos na noite” de Andreia Travassos:





Passos na noite
“Saga de um ser”


 I


Eu queria ser um anjo. Mas, ao meu revés, transformei-me num monstro. Não digo que isto seja ruim, pois obtive a imortalidade. Porém, ao custo de milhares de vidas, que roubei e ainda vou roubar, sendo eu um assassino hematófago que se sustenta com a vida alheia como um parasita repugnante, contudo, não menos belo do que o botão de rosa mais tenro e frágil. Sou um dos senhores da noite que se esconde em suas entranhas escuras e frias para dar o bote como uma cobra venenosa no próximo ser incauto que atravessar-me o caminho. Sou o ser astuto e temeroso que procura o alívio do próprio sentimento de dor na dor alheia que causo com satisfação em minhas vítimas usando minhas presas sedentas do sangue quente que há de escorrer de seus pescoços frágeis em minhas garras impiedosas. Sou demônio, sou vampiro. Anjo caído que nunca teve asas. Assistente do anjo da morte sigo poupando seu esforço e trabalho mandando para o além aqueles que Deus me permitiu julgar e condenar. Sou uma criança sedenta de sangue e de amor, jogada e abandonada na sarjeta como um animal sarnento.
                        Eu queria ser um anjo. Ter belas asas brancas, uma harpa para tocar. Mas só posso chorar sangue, daqueles de quem foi roubado, por aqueles de quem roubei. E sigo na minha monstruosidade noite adentro, tentando sobreviver à angústia que despedaça meu coração frio a cada gole do sangue agridoce que derramo pelas calçadas da cidade, numa oferenda profana àquilo que um dia acreditei e que um dia foi meu sonho. Pois queria ser um anjo e agora espalho o líquido sagrado na esperança de que um deles venha arrancar-me as asas por ter infringido sua lei. E através de minha existência condenada, assim como Caim, dilacero meus irmãos a quem tanto amo, com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios, sabendo que nem céu nem mesmo o inferno hão de querer-me, e que minha penitência continuará eternamente, até que os anjos digam amém e chega.

                                                              
                                                                               

II


As folhas do outono sob meus pés estão tingidas de sangue. Seguro com força a folha ensanguentada em minhas mãos e olho para cima. Vejo uma chuva de folhas laranja-avermelhado caindo suavemente sobre mim. É noite, e esta chuva crepuscular pesa no meu coração por saber que não estou sequer observando um décimo de sua triste beleza. Fecho os olhos sentindo um grande pesar esmagando meu coração morto e abaixo a cabeça em direção ao solo para sentir o cheiro forte e tentador do sangue que a terra começa a absorver. Com uma serenidade impensável a alguém que se encontra frente a um cadáver eviscerado, abro os olhos suavemente e admiro meu trabalho. O jovem infeliz jaz aos meus pés a olhar-me com desprezo. Eu, seu carrasco.
            Lágrimas de sangue vertem de meus olhos e pousam na face fria e sem vida de um belo rapaz que teve o azar de estar naquele bosque na hora em que os monstros vagam pela terra. Abro a mão e observo novamente aquela folha estrelada manchada do sangue daquele pobre anjo caído e me pergunto como terá sido seu último crepúsculo naquele outono frio da Inglaterra. Pergunto-me se soube aproveitar a intensa beleza daquele breve instante em que o sol deita-se no horizonte, banhando toda a terra com seu brilho laranja a tocar nas folhas que se desprendem das árvores numa dança suave e triste, fazendo-nos lembrar que a vida de todos os seres viventes é breve, bela e triste, como a dança das folhas que caem mortas no solo e nunca mais poderão voltar ao seu esplendor.
            Abaixo-me sobre minha pobre “folha caída” e beijo sua face direita, acariciando-lhe a outra face com a folha ensanguentada e sussurro-lhe um pedido de perdão. Fecho os olhos da pobre criatura com as pontas de meus dedos gélidos e levanto-me respirando fundo. Olho para as estrelas acima de mim através das copas das árvores quase nuas. A noite é bela… e as folhas caem constantemente, e apenas as pedras perduram... cobertas pela beleza mórbida das folhas mortas…

                                                                    
                                                                                       
III


Tudo não passa de imaginação… Queria poder dizer que é real, mas estaria enganando a mim mesmo e aos outros. Todos os lindos sonhos que um dia cultivou não passam de pálidas quimeras que já não mais resplandecem aos olhos do mundo. Tudo o que pensou que poderia acontecer de especial e mágico em sua vida era pura ilusão e um medo inconsciente de perder a esperança. Você é o que é, e nada mudará isso. Não existem fadas-madrinhas, não existem vampiros ou lobisomens, magos ou elfos, anjos ou demônios… Você não pode continuar a viver assim, não pode insistir em negar a realidade… E o que é a realidade? Seriam as coisas que podemos ver? Que podemos tocar? Ou seria a realidade tudo aquilo em que acreditamos? Então, se acredito que sou um vampiro, esse mal irremediável da humanidade, eu seria mesmo um vampiro? Mas se vampiros não existem, seria eu um ser inexistente? Seria eu imaginação? Mas então, qual seria a minha realidade?
Tudo não passa de imaginação… E fico me perguntando se há uma resposta para essa minha crise existencial… Chuto a beira da calçada e a sensação de dor me parece real, mas as brumas ao meu redor, tão fluidas, tão intocáveis, me dão uma sensação de não estar, de não ser… A cidade parece grande demais e me sinto comprimido na minha pequenez e insignificância, e imagino se não seria eu mais uma dessas pálidas quimeras, passando por mim, que já não mais resplandecem aos olhos do mundo…

                                                                                                 
IV


Meus olhos se fecham devagar. O sol se aproxima no horizonte. A aurora não tarda. Meu corpo está dormente e não consigo me mexer. Estou deitado sobre uma calçada fria, tão fria quanto meu corpo morto. Não há ninguém na rua e os gatos no beco terminam de saborear sua ceia. Uma chuva fina e constante cai sobre meu rosto que mira o céu. A cidade é vazia e triste. Não tenho mais vontade de continuar… Fecho meus olhos completamente. Só os sons noturnos são agora minha companhia e consolo: ainda não fui destruído.
Respiro fundo e o ar frio da noite corta meus pulmões ressecados e meu corpo todo se contorce de dor. Viro-me inquieto, como alguém que sofre de insônia e revira-se na cama tentando chamar a atenção do deus do sono com uma dança de pura luxúria. Sinto sob meus dedos a textura grossa da estrutura de cimento na qual meu corpo repousa. Meu último sepulcro.
Mesmo com os olhos fechados sinto o raiar do sol. Tento com todas as forças estar consciente nesse derradeiro momento em que o sol tocará a terra com seu beijo de vida. Eu não posso com a vida… Pois minha amante é a morte. Eu sou seu filho e também seu operário. Mas hoje, só hoje, pela última vez em minha existência maldita, eu queria poder ver o rosa suave nas nuvens que descobrem o sol de seu leito fantástico. Queria poder assistir e chorar à beleza desse momento sublime e maravilhoso do simbólico nascimento que ocorre a cada dia renovando a esperança de tudo que vive sob seus raios acolhedores.
Não consigo mais, não posso mais. O sangue em minhas mãos não pode ser apagado. Meus pecados são inabsolvíveis. O peso que sinto sobre minha alma é incomensurável. Quero parar. Quero dar um fim nesse não ser, não viver… Meus olhos se abrem. Vejo o céu ruborizar-se ante meu olhar de regozijo. Dou um sorriso sincero e aliviado. Uma pena branca desliza suavemente no ar, vindo em minha direção. Meu coração palpita. Ainda há algo de vida em mim. Fecho os olhos delicadamente e ouço o ar ao redor. Sinto um formigamento em meu corpo, minha mente flutua. Solto meu último suspiro no ar, como num beijo: “Sempre esperei por ti… meu anjo lindo…”.

                                                       Andreia Travassos
                                                                           19-06-2008

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