Parnaso em Fúria 01

A lírica de Felipe D´Castro...

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Romance - Via Crúcis

  
Eu escrevo para nada e para ninguém.
Se alguém me ler será por conta
própria e auto-risco.
Clarice Lispector



Carta ao leitor
Um narrador de terceira pessoa

     Perdoar-te-ei, caro leitor, se daqui quiseres desistir de tua leitura. Não te digo que se trate de uma narrativa massante, daquelas que se lê para vestibular, mas talvez minha estória não esteja ao alcance de vossa tão colossal compreensão de mundo e entranhas humanas. Se me consideras indigno de ser-te lido fechas já este blog e vás ler um Machado ou Pessoa, lá encontrarás emoções melhores que as minhas. Mas se ficares, leitor desocupado, asseguro-te que saberás a história de um dos personagens mais incomuns que já obteve a dádiva de pisar nesta terra. Ele morava aqui mesmo na cidade donde narrarei estes fatos tão comuns e familiares – já aqui te deixo uma observação, atentes à palavra “familiares”, isso se chama sumário; não que te julgues incapaz de sabê-lo, mas pela vasta experiência afirmo que muitos lêem apenas com os olhos, e por isso não discernem a ruim da boa literatura. Sim, sou prepotente. Darei início, então, à história de nosso pequeno garoto, do qual iremos acompanhar o crescimento. Se me lês até aqui carrega contigo a certeza de que não me deixarás, ainda que me odieis ao longo da jornada. Não te preocupes, não terás de gostar de mim, carente leitor. Eis que tudo tem seu início, e tal é este que vos conto:




Via Crúcis - Capítulo I

Capítulo I

      Ele era um rapaz comum. Sua cabeça era um pouco corpulenta, parecia desproporcional. Era magro, alvo como a cal nas paredes pobres da pobre e abandonada cidade de Bayeux. O ano é o de dois mil e dez, estamos ao mês de agosto, a Espanha acaba de ser campeã mundial de futebol, após investimentos extraordinários em infra-estruturas e rede de hotéis no continente mais pobre do mundo. Aqui nesta cidade as baratas estão de malas prontas, não por motivo de expulsão, mas é que não há mais o que fazerem por aqui, puro tédio, de tudo já fizeram, a cidade fora entregue a elas já há alguns anos. A aqueles que não a conhecem basta imaginar uma cidade feia, mal desenhada, sem nenhum ponto turístico, sem alguém que a conduza, sem tantas e tantas coisas que existem na mais pacata sociedade indígena. Mas ele era magro, o nosso garoto. Tão ossudo que sua bacia dava-lhe um aspecto de andar armado a todo tempo. Ele era muito magro. Tinha os cabelos amarelados, sem vida. Olhos marrons como mel, e mais bonitos ficavam ao receber a visita da luz solar.
     Naquele dia entrou em casa absorto, cabeça baixa, pensativo mesmo. Abriu a porta devagar, caminhou um pouco pela sala, olhou as paredes como se esperando delas as respostas que tanto queria. Rapidamente, começou a caminhar dentro da minúscula sala, inúmeras imagens fervilhavam-lhe a cabeça, seus pensamentos estavam todos na noite passada, já não podia mais suportar tudo aquilo. Caminhava cada vez mais rápido e era óbvio, precisava tomar uma decisão precisa, rápida e rápido. Como aquilo pôde ter acontecido com ele? Justo ele? E se todos soubessem? E se ela soubesse? Afinal... Ficou assim por uns dez minutos, andando de um lado para outro da sala - me desculpe, crítico leitor, se pretendes que eu te diga o que tanto pensava nosso menino, não o direi pelo simples fato de ser um narrador de terceira pessoa e não pretender adentrar os pensamentos do meu protagonista neste momento, no mais, não te devo explicações, apenas lês e não me interrompas mais. O garoto esguio decidiu-se.
     Caminhou para a cozinha a passos largos, apressados. Pensava consigo coisas de perdão. Procurou por toda a parte a corda que havia guardado para os seus casos de emergência. Ele tinha dezoito anos, e como era magro! Abaixo da pia de lavar pratos achou, firme, a corda que tanto procurara. Era uma corda forte, resistente, de uns três metros no máximo. Pegou-a e sem demora, respirando em soluços, fantasiou em si a redenção, e caminhou para seu quarto – antes que algum leitorzinho desses mais chatos me pergunte: não, não havia ninguém em casa; já pedi para não me interromper!.
      As memórias ainda fervilhavam-lhe. Suas teorias estavam erradas e tais erros culminaram em seu próprio castigo, seu auto-castigo. Subiu na cama. Deitou-se e assim ficou por uns três minutos, olhando o telhado, parecia mais calmo. Em seus olhos a figura de um adolescente abatido e fraco. O espelho de sua cama era divido em barras, barras fortes de ferro. Levantou-se, passou a corda em volta de uma dessas barras, pegou uma ponta da corda e enlaçou em seu pescoço, a outra ponta segurou muito forte. De frente para o espelho da cama, se jogou para trás, puxando também a outra ponta, com os pés, empurrava as barras para aumentar a força, seu pescoço comprimia-se dentro da corda, os fios de sua vida estavam se emaranhando na foice da morte. Segundos depois a porta iria abrir, mas isto não é assunto para agora, curioso leitor. Quem abrira a porta somente saberás ao fim deste romance, o que acontecera a nosso protagonista, também. Mas, para que possamos entender a natureza de tal ato, precisamos mergulhar na história do magérrimo bayeuxense (leia-se baieensse). Histórias para os próximos capítulos.
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